Texto de Luciano Calazans (diretor do programa musical do Projeto Tamar, em expedição de pesquisa).
Não há adjetivos em meu ínfimo vocabulário que possam descrever a gratidão e honra que é fazer parte do balzaquiano em bem sucedido na batalha árdua em sua principal causa que é a proteção às tartarugas marinhas e, sobretudo, à vida em todos os aspectos e nuances: o Projeto TAMAR.
A prova cabal desse sentimento perene foi a visita que fiz à Regência Augusta ou simplesmente Vila de Regência, nas fúlgidas festividades calcadas num ritmo alucinante, divertido, profano e religioso, em homenagem ao herói capixaba, Caboclo Bernardo, e seus desatinos como o Miudinho, figura lendária de Regência.
Fiquei deslumbrado antes de ir até Regência visitar o Centro de Visitantes de Vitória do Espírito Santo e a paisagem exuberante que adorna o mais que bem cuidado lugar. Deu para sentir o cheiro do amor à causa do projeto por todos que ali estavam.
Não tinha ideia (pensava que tinha), até agora, da dimensão (ou das dimensões) em que o Projeto TAMAR se envolve, não só com a vida marinha, a sustentabilidade, mas, também, com as manifestações populares do nosso país, tão esquecidas por milhões de Brasileiros que não sabem - e talvez não queiram saber - o quão rico é nosso país: dos recursos naturais aos mais altos cumes das culturas populares, esquecendo um pouco do famigerado - nos dois sentidos da palavra - carnaval.
Quando cheguei em Regência, me deparei com uma vila e fiquei me perguntando: "como esse povo veio parar aqui?"
Então percebi que tenho muitos motivos de me orgulhar de todos do Projeto TAMAR, de me orgulhar em saber que existem humanos dentre outros humanos, que sempre tiveram o respeito às outras espécies de vida do nosso planeta como um ideal, um estribilho de algumas vidas jovens - sempre serão - que, como bandeirantes, foram aos mais longínquos lugares à procura da preservação das formosas e belas tartarugas marinhas - em uma época que nem se falava em sustentabilidade -, seu habitat e dos costumes e hábitos dos que já viviam lá. Seja em Regência, Praia do Forte ou Pirambú, primeiras bases do Projeto.
Recebi um convite honroso de Joca Thomé para simplesmente fazer o que sei fazer um pouco: tocar para e com os habitantes da vila de Regência e ouvir/ver as congadas ou os grupos de congo da Festa do Caboclo Bernardo.
Recebi uma avalanche de informações. Desde a criação da reserva ecológica, os porquês, os pormenores, às dificuldades encontradas e encaradas com ânimo contagiante, gente dedicada - como em todas as bases que conheci até agora -, que mais parecem ter absorvido como esponjas uma espécie de padrão do TAMAR dentre as quais se destacam, o receber bem, o acolher bem, o cuidado... Aliás, a palavra cuidado e Projeto TAMAR deveriam ser homônimos.
Entrevistei muitos nativos com meu celular e as respostas eram sempre as mesmas, só que de forma diferente, quando indagava sobre a importância do Projeto na vila. Uma unanimidade enchia meus ouvidos.
Toquei música instrumental com músicos locais em praça pública e a emoção de, mesmo sem ensaios (só um ensaio-festa) ou recursos tecnológicos, me senti como se estivesse no maior dos festivais que já pude tocar mundo afora.
Foi uma troca singela e profunda de experiências e me senti muito feliz em estar contribuindo, com o pouco que até agora aprendi, com aquele momento tão importante, sublime e emblemático.
No dia 02/06/2013, a festa principal! Os grupos de congo com suas casacas, seus tambores graves, médios e agudos, seus chocalhos e seus cantos. Dois estilos de batidas; a da Barra do jucu (balneário de Vila Velha -ES) e da Serra.
Entrevistei um membro de um dos mais de 60 grupos, sobre o nome de cada instrumento e o seu papel dentro do ritmo, mas nem precisava; era uma questão de sentir. Muita energia que só pude acompanhar a partir das 13:40 pelo simples fato de estar na noite passada escrevendo o que tinha ouvido na outra noite da Folia de Reis.
"Onde qué menino
Onde qué menino
Onde qué cadê com vo lá
Onde qué menino
Onde qué menino
Onde qué cadê com vo lá
A ave de noite vagueia
Procurando encontrar
Uma estrela que clareia
Para me iluminar
Eu já tô velho e cansado
E já não agüento mais
Oh! Menino encantado
Eu venho lhe pedir a paz"
Para "fechar a tampa", perguntei ao Joca sobre a festa do congo, as bandas...Tudo tinha o apoio do Projeto TAMAR há mais de 16 anos! Fui ao delírio!

Casa do Congo - Regência/ES